24 de fev. de 2011

Um moicano, uma tesoura e uma história

(Publicado dia 03/03/2010 no antigo blog)
 
Numa sexta feira atípica nas minhas andanças pela cidade, estava decidido que iria cortar o cabelo, nada me tirava isso da cabeça, sendo assim busquei em minhas memórias um local que fosse rápido e barato, não teve jeito,escolhi o bairro da Lapa, zona oeste de SP . O lugar é bastante movimentado, milhares de pessoas passam pela região diariamente, deve ser por isso que o bairro vive em uma eterna degradação urbana.

  Mas por que a Lapa?

  Porque lá tem um quarteirão que é dominado por salões de beleza, imaginei que como há bastante demanda não seria difícil achar boas ofertas. Após uma breve observação, notei que existe uma espécie de cartel no local e qualquer salão que entrasse pagaria os mesmos R$ 7,00.

  Entrei no salão, aparentemente era o mais limpinho, porém demorou demais e pulei para o vizinho e logo fui abordado por uma figura rude e no mínimo curiosa, um rapaz mais ou menos de 1,65m, roupas que geralmente não são usadas por cabeleireiros e um corajoso moicano amarelo, isso mesmo.

- Vá até a ultima cadeira.

  Caminhei pelo imenso salão, sentei e ele fez a típica pergunta:

- Vai querer como?

  Diante de tal simpatia pensei em responder sem picles e sem cebola, mas achei melhor deixar as piadinhas de lado e falei logo o meu corte para ele, afinal, queria sair logo dali.

  Depois de alguns minutos com as mãos em minha cabeça, a intimidade peculiar que só os cabeleireiros acham que tem sobre nós falou mais alto.

- Ta meio falhado aqui na frente heim.

  A sorte dele é que sou a paciência em pessoa e respondi apenas com o sorriso seguido da única coisa que veio em minha mente no momento.

- É foda.

  O papo continua e não sei por que motivos ele começou a falar da vida dele, comecei a prestar atenção em suas palavras.

  O alegórico rapaz, é conhecido como Maranhão por seus colegas de trabalho, nasceu em São Luis e veio para São Paulo com 18 anos, hoje ele tem 25, conquistou sua casa e sua moto e se orgulha muito disso.

  Entretanto, seu passado era meio nebuloso e todos ao seu redor o julgavam por sua aparência. Maranhão morava próximo uma aldeia de índio e com 13 anos já cortava o cabelo de seus amigos, colocava uma espécie de cumbuca na cabeça dos colegas e raspava com gilete o restante do cabelo que ficavam para fora da cumbuca, famoso cabelo tigelinha.

  Maranhão ganhou notoriedade em seu vilarejo, principalmente, após o seu novo corte, cuja influência veio do filme de Michael Mann, O Último dos Moicanos. A partir desse momento todos em seu bairro começaram a desconfiar de sua masculinidade, inclusive sua família, porém, não abalou-se com isso e seguiu seu sonho, vir para SP ser cabeleireiro.

  Esse sonho surgiu depois que viu propagandas na TV dizendo que em São Paulo havia cursos profissionalizantes de cabeleireiro, juntou uma grana e veio morar com um tio. Conseguiu terminar o curso, começou a trabalhar em um salão na Zona Leste, fez outro curso e mais outro.

  Conheceu uma mulher de 40 anos, apaixonou-se por ela e decidiu casar. Estava tudo bem, mas ele ainda precisava provar para todos de sua família em São Luis que não era homossexual, não por achar isso errado, mas por que não é mesmo. Levou sua esposa para a capital maranhense e apresentou para seus familiares, mesmo assim, eles não acreditaram nele.

  Voltou para São Paulo indignado, logo depois teve uma filha, segundo ele é a coisa mais preciosa que ele tem. Quando sua filha nasceu, decidiu voltar para São Luis e apresentar sua filha aos seus familiares, sua mãe viu que tinha uma neta linda e finalmente viu que seu filho não era homossexual e pediu perdão ao filho.

  Aqui viu que sua vida estava bem, tinha trabalho, família, estava feliz, até que em julho do ano passado sua esposa morreu de forma inesperada por decorrência de câncer não diagnosticado, seu mundo caiu de uma vez, não tinha forças para nada.

  De lá pra cá busca ânimo para tocar a vida, tem um filha, que segundo ele dá forças para continuar a vida, chorar? Ele garante que já não chora mais,prefere ficar com as lembranças boas e viver feliz ao lado da filha, isso ele pode mudar, o que ele não pode mudar é cagada que fez em meu cabelo.


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